
Barbie
Depois de ser expulsa da Barbieland por ser uma boneca de aparência menos do que perfeita, Barbie parte para o mundo humano em busca da verdadeira felicidade.
Data de lançamento: 20 de julho de 2023 (Brasil)
Diretora: Greta Gerwig
Distribuído por: Warner Bros. Pictures
Cinematografia: Rodrigo Prieto
Diretores de arte: Gordon Stotz, Joe Howard, David Doran, Jo Finkel, Hugh McClelland
Direção de elenco: Allison Jones, Lucy Bevan, Kate Ringsell
Barbie é uma boneca e personagem fictício fabricada pela empresa estadunidense de brinquedos Mattel, Inc. e lançada em 9 de março de 1959. Hoje a Barbie teria 64 anos.
Há meu ver, a Mattel e Warner Bros Pictures em conjunto com a Greta Gerwing tentam desconstruir o mundo “cor de rosa”, e o da mulher perfeita, impecável, criado pela Mattel em 1959, na sociedade americana, dos encantados Barbies e Kens, trazendo uma narrativa mais realista e menos fantasistica da vida. Obviamente, tentando se adequar ao discurso atual e as novas demandas feministas.
Aqui no Brasil Barbie chegou em 1982, 23 anos depois do seu lançamento nos USA, desbancando a até então dona do pedaço SUSY.
Mas mesmo que os interesses sejam outros para quem produziu o filme, o meu aqui é pensar no desenvolvimento psíquico/ emocional humano. Ele não acontece de uma hora para outra e não se dá de forma tranquila. O filme, a meu ver, retrata bem essa transição. A inocência ou “alienação” é abalada pelas pulsões, e o que fazer com essas energias?
Não á toa chega a ideia da morte, da finitude em Barbie que anda insatisfeita com o modo de vida que está levando.(embora a Barbie no filme se apresente como ainda uma lady intocável, na realidade, se ela existisse na Barbieland ela teria 64 anos). Narrativa esta que nos faz pensar na difícil transição que é sair de um estado acomodado para se dar conta de quem realmente é na vida, uma vida cheia de ruídos e com responsabilidades sobre os seus atos. Como não sabe lidar com seus sentimentos, tenta transferi-lo a um mortal, ou seja, existe em algum lugar uma menina que está sofrendo (que podemos pensar ser ela mesma) e perturbando-a com uns sentimentos que são totalmente desconhecidos e, assim sendo, não a pertencendo. Para combater tal sentimento e continuar no seu mundo “cor de rosa”, é preciso que a Barbie atravessasse o “portal” que por ela foi aberto, esse portal seria a conexão com o mundo real. Mas uma vez em contato com o mundo real (interno), será que conseguiremos nos manter no mundo da alienação?
O filme Barbie começa de forma bem interessante, traz a mulher de maiô, poderosíssima em contrastes com crianças da época brincando no deserto com suas bonecas bebês, que ao se depararem com a nova boneca-mulher se revoltam e quebram as suas bonecas. Aqui já podemos pensar uma quebra nos padrões da época. Logo em seguida aparece a Barbieland totalmente rosa, fluindo nas fantasias, as bonecas voam, tudo é fictício, só tem aparência. Parece mais não é, aquele tradicional faz de conta. Tudo caminha cor de rosa até a Barbie descolada, entrar em um conflito com a sua aparência e seus sentimentos. Pela primeira vez pensa na morte. Esse pensamento começa a ser constante, e a partir desse pensamento vem a percepção de si, visualiza em sua perna um pouco de celulite. No momento em que, na festa das garotas, ela fala sobre o que vem pensando, causa um mal-estar e uma paralisação em todas. A música é suspensa e o suspense deixa aparecer o desconforto com o assunto proferido – a morte. As variações das Barbies se preocupam com seus pensamentos e com o que eles poderiam fazer acontecer, e sugerem de ela ir falar com a Barbie estranha.
Essa representação no filme, da Barbie estranha, podíamos pensar na questão da quebra da idealização, da perfeição. Se quiser continuar perfeita é preciso atravessar o portal, portal esse criado pela Barbie ao dar abertura para que os sentimentos se manifestem. Ou seja, amadurecer tem um preço, assumir as responsabilidades sobre aquilo que penso e faço. Uma vez adultos, precisamos dar conta daqueles momentos tenebrosos que vivenciamos, tendo que tomar decisões, pensar o rumo que queremos dar as nossas vidas, momentos reais que todos nós, seres humanos, sem exceção, passamos.
Na Barbieland, a alegria que a Barbie descolada sentia começa a ter vácuos, podemos pensar aqui no desamparo primordial, levando-a a ter sentimentos de tristeza, de vazio, e junto a isso a perceber algumas modificações em seu corpo, umas celulites, e o pé chato, o corpo que vai se modificando. Um dia ela deixa de conseguir flutuar e cai e perde o sapato, ao mesmo tempo que não consegue caminhar sem seus saltos. Nesse momento as coisas começam a mudar no mundo encantado da Barbie descolada, as coisas passam a não fazer sentido. A partir destes episódios, a Barbie é aconselhada a procurar a Barbie estranha para conversar.
A Barbie estranha, no entanto, diz o que estava acontecendo, fala do portal que ela abriu (as sensações fortes sentidas pelas jovens adultas, que se veem feias, estranhas, sem perspectivas) e a sugere de ir em busca da menina que transmitiu a ela a ideia da morte e o sentimento despertado por essa ideia. Para conseguir se safar desse sentimento, teria que atravessar o portal aberto com o surgimento do tal sentimento. (esse portal seria a passagem do mundo fictício para o mundo jovem/adulto? Mundo este onde todos deveríamos ter responsabilidades por aquilo que é sentido?)
Dessa forma Barbie decide que iria ao mundo real encontrar a “menina” (simbolicamente essa menina seria ela mesmo, que desce, ao mais profundo do seu ser, em busca de respostas para os sentimentos que a toma e ela não consegue decifra-los?).
Para sua surpresa, Ken pega escondido uma carona, aparece no caminho. – Feminino e masculino – seguem juntos em busca de desvendar o mistério que a fez sair do lugar da perfeição.
Chegando ao mundo real, levam um choque com a realidade crua, em algum momento avistam um grupo de operários onde a Barbie faz questão de falar sobre a sua sexualidade, “não temos órgãos sexuais” aqui mostra uma indefinição sexual. Estaria ela falando da sua assexualidade? Ken rebate dizendo que ele tem sim seus órgãos.
Neste mundo novo cheio de contradições, violento e extremamente agressivo eles vão descobrindo novas formas de estar no mundo, ao mesmo tempo que vão se descobrindo também. No ponto de Ônibus, Barbie, tenta acionar seus sentimentos para encontrar a menina. De repente ela se dá conta de que tem alguém sentada ao seu lado, com lágrimas correndo em seu rosto ela olha para a pessoa, que é uma idosa, ela olha novamente para a idosa e diz: “Você é bonita. No que a idosa responde: Eu sei.” A desconstrução da perfeição e a aceitação da vida como ela é, com todas as suas imperfeições, com a sua transitoriedade, se apresenta neste momento.
