Porque a importância desse movimento: “É Block no tigrinho”

As Bets (apostas esportivas e jogos de azar online) têm se tornado cada vez mais populares, especialmente entre jovens e adultos conectados à internet. Embora possam parecer uma forma inofensiva de entretenimento, o envolvimento frequente ou descontrolado com as apostas pode trazer graves consequências para a saúde mental e o bem-estar emocional.

As plataformas de apostas são projetadas para estimular o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina — o neurotransmissor ligado ao prazer. Com o tempo, o jogador precisa apostar cada vez mais para sentir o mesmo “barato”, o que pode evoluir para uma dependência comportamental semelhante ao vício em drogas. As perdas são parte inevitável do jogo, mas o impacto emocional pode ser devastador.

Na visão psicanalítica, todo sujeito humano é marcado por uma falta estrutural — algo que nunca se satisfaz completamente. Essa falta é o que move o desejo, o que leva a pessoa buscar sentido, amor, reconhecimento.

O vício (em drogas, álcool, jogo, amor, apostas etc.) aparece quando o sujeito tenta tampar essa falta com um objeto que dá prazer imediato — o que Freud chama de “satisfação substitutiva”.

Mas, como o objeto nunca preenche de fato o vazio, o desejo retorna, e o ciclo se repete: busca → alívio → culpa → nova busca.

Muitos apostadores desenvolvem ansiedade constante, insônia e crises de pânico diante do medo de perder dinheiro ou de não conseguir “recuperar” o que já foi gasto. A situação financeira pode se deteriorar rapidamente, gerando culpa, vergonha e desespero. Com o tempo, o ciclo de esperança e perda desgasta emocionalmente. Freud observou que o vício é um modo particular de lidar com o prazer e a repetição.

Ele fala da pulsão de prazer (Eros) — que busca satisfação — e da pulsão de morte (Thanatos) — que empurra o sujeito para a repetição e a autodestruição.

Assim, o vício é ambíguo: Por um lado, busca prazer e alívio. Por outro, contém uma força autodestrutiva, pois o sujeito repete algo que o faz sofrer, mas do qual não consegue se desligar. Freud chamou isso de “compulsão à repetição” — o retorno insistente a uma cena de dor ou prazer impossível de dominar.

O jogador pode sentir-se inútil, fracassado e impotente, especialmente quando as apostas interferem em outras áreas da vida — relacionamentos, trabalho ou estudos. Existe uma dificuldade real em parar, mesmo após perdas, que levam a uma necessidade de apostar quantias cada vez maiores. Cria pensamentos obsessivos sobre apostas, e cada vez fica mais irritadiço ou ansioso quando não está jogando. Sente-se deprimido e fracassado o que o leva ao isolamento social e conflitos pessoais.

Lacan aprofunda essa ideia, para ele, o vício é uma relação com o gozo (jouissance) — um tipo de prazer que vai além do prazer, um prazer que já é também sofrimento. É quando o sujeito ultrapassa o limite do prazer e entra na dor, mas não consegue parar. No vício, o objeto (álcool, aposta, substância, comportamento) vira um “objeto de gozo”: algo que substitui o Outro (o amor, o sentido, o reconhecimento), e do qual o sujeito se torna servo, prisioneiro. O vício, portanto, não é apenas “falta de controle”: é uma forma de relação com algo que o sujeito usa para tentar calar o inconsciente, silenciar a angústia ou o desejo.

A depressão relacionada ao jogo é comum e, em casos graves, pode levar a ideações suicidas. Quem aposta de forma excessiva tende a se afastar de amigos e familiares, escondendo o comportamento ou evitando confrontos. Mentiras sobre dinheiro e tempo gasto com apostas são frequentes, o que pode gerar culpa, desconfiança e rupturas afetivas.

As bets criam uma ilusão de controle — o jogador acredita que pode prever resultados ou “dominar” o sistema, quando na verdade o acaso predomina. Isso leva a decisões impulsivas, reforçadas por mecanismos das plataformas (como bônus, notificações e gratificações rápidas), mantendo o usuário preso em um ciclo de autoengano. Pessoas com histórico de ansiedade, depressão, TDAH ou impulsividade são mais suscetíveis a desenvolver dependência. Além disso, a exposição precoce (em adolescentes, por exemplo) aumenta o risco de comportamentos compulsivos na vida adulta.

O que ajuda?

Autoconhecimento: reconhecer os gatilhos emocionais que levam à aposta.

Limites claros: estabelecer valores e tempo máximos para uso (e respeitá-los). Apoio psicológico: a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens mais eficazes para tratar vício em jogos.

Grupos de apoio: como Jogadores Anônimos (JA), que oferecem suporte gratuito e confidencial.

  1. Como identificar a dependência em apostas

Esses sinais podem aparecer de forma gradual — o problema costuma crescer silenciosamente.

Observe comportamentos, emoções e padrões de pensamento como os abaixo:

1-Falar constantemente sobre apostas, jogos ou resultados.

2-Esconder o quanto gasta ou mente sobre o tempo jogando.

3-Apostar mesmo quando está sem dinheiro.

4-Tentar “recuperar” perdas com novas apostas.

5-Negligenciar trabalho, estudos ou relações pessoais.

6-Irritação, ansiedade ou inquietação quando não pode apostar.

Sinais emocionais e psicológicos, Sensação de culpa e vergonha após perder. Mudanças bruscas de humor (euforia com ganhos, tristeza com perdas). Insônia ou preocupação constante com resultados. Baixa autoestima e sensação de fracasso. Pensamentos de “só mais uma aposta e eu paro”.

Sinais financeiros: Dívidas crescentes; Uso de crédito, empréstimos ou dinheiro de outras pessoas. Dificuldade em pagar contas básicas. Se a pessoa apresenta 3 ou mais desses sinais de forma repetida, é um indício claro de dependência comportamental e o ideal é buscar ajuda profissional.

 Como prevenir e tratar o vício em apostas:

  1. A. Reconhecer e falar sobre o problema

     O primeiro passo é admitir que há perda de controle — isso reduz o poder da negação, que é comum em quem aposta.

  1. Lidar com emoções difíceis sem recorrer ao jogo.
  2. C. Participar de grupos de apoio

Grupos como Jogadores Anônimos (JA) funcionam de modo parecido com Alcoólicos Anônimos. Ali, o participante encontra acolhimento, escuta e apoio emocional — sem julgamentos.

  1. D. Reduzir o acesso e os gatilhos
  2. E. Bloquear sites e aplicativos de apostas.
  3. F. Evitar seguir influenciadores de bets.

Substituir o hábito por atividades que gerem prazer e dopamina de forma saudável (exercícios, leitura, hobbies).

  1. G. Reforçar laços afetivos

O isolamento é combustível para o vício. Manter contato com amigos, família e redes de apoio é essencial para a recuperação.

Em vez de vê-lo apenas como um problema químico ou de controle de impulsos, a psicanálise o entende como uma forma de sofrimento psíquico, uma tentativa de lidar com algo interno, com o vazio, a angústia ou a falta.

A psicanálise não propõe suprimir o vício diretamente, mas escutá-lo: entender o que ele diz do sujeito, qual função psíquica ele cumpre, o que ele tenta encobrir ou sustentar. O analista ajuda o sujeito a nomear o gozo envolvido no vício, a compreender o sentido inconsciente da repetição e a encontrar outras formas de lidar com a falta – sem precisar anestesia-la.

O tratamento visa que a pessoa assuma uma posição mais ativa diante do próprio desejo, em vez de ser dominada por ele. A origem do vício é uma tentativa de preencher uma falta simbólica, a lidar com a angústia provocada pelo vazio. A compulsão à repetição é busca de gozo, mesmo com sofrimento. A função psíquica é calar o desejo, evitar o confronto com o inconsciente. A escuta, proporcionará interpretação e elaboração do sentido inconsciente do sintoma. Em vez de perguntar “por que você não consegue parar?” a psicanálise perguntará: “O que o vício está tentando dizer para você?”

O vício, para a psicanálise, é uma tentativa de curar a falta — mas acaba sendo o modo mais doloroso de confirmar que ela existe.  No tratamento Favorecer a fala e a elaboração do sentido da repetição; trazer à consciência os conflitos inconscientes.         Fazer o sujeito reintroduzir o desejo e simbolizar a falta — deslocar o gozo para o campo da palavra.

            “O sintoma é uma satisfação substitutiva de uma pulsão.” “O vício é um modo de gozar fora do simbólico.”

Freud vê o vício como um sintoma: uma forma de o inconsciente encontrar satisfação onde há repressão.

Lacan vê o vício como uma relação direta com o gozo, fora do campo da linguagem — um curto-circuito entre o desejo e o objeto.

Enquanto Freud ainda aposta na cura pela fala, Lacan mostra que o sujeito viciado se cala: ele não fala, goza.

O tratamento, então, busca reabrir o espaço da palavra — fazer o sujeito reencontrar o desejo, e não apenas o objeto do gozo.

Porque a importância desse movimento: “É Block no tigrinho”
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